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SILVINO JACQUES

                                              



O afilhado de Getulio Vargas que marcou uma Época

HISTÓRIA

Extraído do livro "Coronéis e Bandidos de Mato Grosso, 1889-1943"
por Valmir Batista Corrêa

"Direitos para publicação neste Website cedidos pelo próprio autor"

CAPÍTULO VII

OS REBELDES DA FRONTEIRA



Somente a partir da década de 30 até os anos 40 surgiram na região diversos bandos, cujas atividades ganharam fama além dos limites do estado. O aparecimento de bandos pequenos ou numerosos, mais ou menos organizados, assumiu novos contornos em relação ao banditismo da fase anterior a 1930 e delimitou-se mais precisamente à região sul do estado e à sua área de fronteira. Foi uma época em que reinaram quase sempre impunes em toda a extensão sul de Mato Grosso bandos como os bochincheros e os quatreros, ou bandos chefiados por Sylvino Jacques, o mais célebre de todos; pelos Quirinos, Flores, Pacas, Baianinhos, Galbas e Netos.


O mais célebre, porém, de todos os bandidos da região sul mato-grossense (segundo o poder situacionista) foi Sylvino Jacques, também conhecido pela população sulina e fronteiriça como o Lampião de Mato Grosso. Sua fama, mistura de herói sertanejo e bandoleiro muito temido, transformou-o num verdadeiro mito em Mato Grosso, cujas proezas foram cantadas em verso e prosa pela literatura regional. Assim, a maior parte de sua vida e de sua atuação foi preservada até os dias de hoje em toda a fronteira sul-mato-grossense e no pantanal, através da tradição oral e do mito: "Vi muitas vezes em comercios de carreira, ele improvisando, cantando com uma sanfona e bebendo vinho. Muito bom atirador. Abria garrafa de bebidas, seus companheiros segurando a garrafa na cabeça e ele atirando com o Revolve (sic) e tirava tampa sem quebrar a garrafa"18.


Vindo do Rio Grande do Sul, onde cometeu seu primeiro crime, Sylvino Jacques lutou em 1932 ao lado das forças governistas na região de Porto Murtinho, como capitão da Brigada Militar, dedicando-se mais tarde às atividades comerciais. No entanto, no ano seguinte, foram solicitadas "providencias necessarias no sentido de serem presos e extraditados os individuos Silvino Jacques e Argemiro Leão, pronunciados pelas justiças da comarca de Ponta Porã, por terem assassinado Candido Barbosa Pratt, e refugiados no Paraguai"19.


A atuação de Sylvino Jacques só adquiriu repercussão por volta dos anos 1935/1936. Por esta época, matou um membro da família de Alipio dos Santos20, seus antigos amigos e companheiros, iniciando uma rivalidade que só teve fim com a própria morte de Sylvino. Conforme alguns depoimentos, Sylvino Jacques chegou a ter o apoio de alguns membros da família Santos para participar de um movimento armado, em 1935, com o objetivo de lutar pela divisão do estado mato-grossense, além de vinculações com a intentona comunista: "Silvino Jacques e Argemiro Leão receberam um contato do Rio, um alemão de nome Agrícola. Era um elemento de ligação dos comunistas. Silvino começou arrebanhar homens armados, entre eles eu e Alcides, para atacar Porto Murtinho. Segundo Silvino Jacques a missão era dividir o estado. Chegaram a fazer prisioneiros num lugar chamado Recreio. Nesse momento chegou no acampamento esse Agricola. Depois ficamos sabendo que veio avisar do fracasso da intentona. Silvino matou esse Agrícola"21.


Apesar da versão de Orsírio Santos e Alcides Fernandes da Silva, Agricola foi preso e remetido para o Rio de Janeiro, onde permaneceu em liberdade. Agrícola tinha ligações com Luís Carlos Prestes e com o PCB, recebendo de seu líder a incumbência de ir a Mato Grosso para atender à determinação de "juntar algumas armas e amigos ou companheiros, que comece imediatamente a luta contra os fazendeiros reacionários, contra os impostos, contra o imperialismo, contra a Mate Laranjeira, satisfazendo os interesses imediatos do povo"22.


Segundo este emissário do PCB, a data do levante em Mato Grosso chegou a ser marcada para o dia 24.09.35 e, depois por sugestão de Sylvino Jacques, foi transferida para o dia 30. Nesta data, Sylvino Jacques conseguiu, com Argemiro Leão (que também tinha participado da Revolução de 1924), reunir vários grupos armados. "Convém salientar", informou este emissário, "que Silvino teve grande prejuízo, dando quase toda a sua mercadoria para as familias dos camponeses que iriam nos acompanhar, além disso, vendeu uma boiada com prejuízo de sua parte, para o dia 30 estar completamente livre para o movimento"23.


No entanto, o adiamento definitivo do movimento, por orientação do Comitê Central do PCB, resultou na prisão de Agrícola com a sua entrega às forças do exército por Sylvino Jacques e Argemiro Leão. Segundo o "Informe Mato Grosso", esta prisão, de comum acordo, foi um artifício para minimizar o efeito da reunião de muitas pessoas armadas para um movimento revolucionário e evitar uma repressão das forças governantes. Provavelmente, as repercussões de um movimento separatista, ou mesmo do seu envolvimento com o movimento comunista, extrapolaram os limites desejados por Sylvino Jacques, tornando-o um elemento indesejável para as autoridades mato-grossenses.


O combate sistemático ao bando de Sylvino Jacques correspondeu ao período de desarmamento no sul de Mato Grosso, já em pleno Estado Novo e comandado pelos militares do exército. Assim, a repressão ao bando foi conduzida, de início, pelas forças militares. Segundo a imprensa local, "o Sr. General Commandante da Região tem tido varios offerecimentos de fazendeiros, de homens armados por elles próprios e custeados para combate aos bandoleiros, porem sua Excia. tem recusado sistematicamente, não desejando que população faça quaesquer gastos ou sacrifique uma só vida nessa campanha"24. Não houve, porém, nenhum combate direto entre o bando e as forças do exército, o que até certo ponto confirmou a falta de interesse dos militares num confronto direto com os bandidos. De fato, a maior preocupação do exército no estado mato-grossense voltou-se para a questão do desarmamento em toda zona rural e urbana.


Mais tarde, foi designado como delegado especial para a repressão ao bando de Sylvino Jacques, Manoel Bonifácio Nunes da Cunha. "Decidido o Estado a pôr termo aquela situação anormal, organizou a Delegacia Especial do Sul, com séde em Aquidauana. Auxiliada por dois grupos de civis contratados e pelo pelotão de Cavalaria da Força Policial, a Delegacia iniciou forte ação contra Silvino Jacques e seu bando, em abril de 1939"25.


Duas capturas foram então organizadas para a perseguição ao bando de Sylvino, uma sob o comando do tenente Rodrigo Peixoto, e outra de Orsírio Santos. "De acôrdo com o plano de operações contra os bandoleiros, a Captura comandada por Orsirio Santos marchou, no dia 18 do corrente, á noite, de Margarida para a Fazenda Triunfo, propriedade de Severino de Toledo. No dia 19 do corrente, á tarde, a Captura de Orsirio Santos encontrou o bando de Silvino Jacques na envernadinha do Triunfo, perto do ribeirão Prata, abrindo fôgo contra o bando, o qual fugiu para o lado da fazenda Aurora, sendo perseguido pela Captura, de baixo de intensa fusilaria da mesma, num percurso de 9 quilometros. Ao chegar ao corrego Aurora, o bando se entrincheirou na barranca do mesmo. A captura tentou desaloja-lo, sendo nesse momento (atingido) o destemido metralhador Horacio Santos e machucado, em virtude de quéda do seu cavalo, o sargento Héron Alves, subcomandante da Captura./ Como a Captura de compunha apenas de 11 homens, foi éla obrigada a retroceder, afim de sepultar o metralhador e prestar os socôrros de que necessitava o Sargento Héron, que se portou no combate com inexcedivel bravura, segundo informa o comandante da Captura./ Depois de remuniciada e de conduzir a Béla Vista o Sargento Héron, a captura voltou a operar e fazendo, a 24 do corrente, o reconhecimento do local do combate, encontrou o cadaver de Silvino Jacques, chefe dos bandoleiros./ O cadaver foi encontrado numa rêde armada na costa do corrego Aurora, coberto por um Puitan. O cadaver de Silvino Jacques apresentava tres ferimentos produzidos por bala de fuzil: um no braço direito (da direita para a esquerda), outro na região illiaca (da direita para a esquerda, atravessando a bacia), e outro na perna direita (direita para esquerda, atravessando a perna)"26.


No tempo do surgimento do bando de Sylvino Jacques, apareceram também alguns bandos menores que se dedicaram ao roubo de gado. "Um grupo de ladrões, entre os quaes figura como cabeças: Vitor, João Paca e uns taes Querinos, todos sobejamente conhecidos, do povo e autoridades de aqui, estão em plena atividade, roubando-nos a luz do dia, em lotes de 10 e 100 cabeças de gado e cavalos estes sempre escolhidos"27. Esses pequenos bandos de ladrões de gado foram igualmente reprimidos e, em pouco tempo, desapareceram do sul do estado.




NOTAS DE RODAPÉ - FONTES


18 Depoimento de Homero Antunes da Silva, Bonito, 21.06.1977.


19 Of. Reservado do Ministerio da Justiça e Negocios Internos ao Interventor Federal de Mato Grosso.

Rio de Janeiro, 02.08.1933.


20 O episódio teve origem numa desavença entre Sylvino e um genro de Alipio dos Santos, durante uma carreira (corrida rústica de cavalos), sendo mortos também um primo de Sylvino e um seu camarada.


21 Depoimento de Orsirio dos Santos, Bela Vista, 10.11.1979. Esse mesmo relato foi confirmado no depoimento de Alcides Fernandes da Silva, Bela Vista, 10.11.1979. Segundo Bezerra, "em Mato Grosso, desenvolveu-se uma luta guerrilheira, comandada por Silvino Jaques, que conseguiu resistir durante vários meses, graças à sua mobilidade". In: BEZERRA, Gregório. Memórias. 2a. parte, 1946-1969. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980. p. 226.


22 Carta de Prestes a Agrícola (6 de agosto de l935. Tribunal de Segurança Nacional. Processo n° 1). In: VIANNA, Marly de Almeida Gomes (Org.). Pão, terra e liberdade: memória do movimento comunista de 1935. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional; São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 1995. p. 340. Muito provavelmente, refere-se ao Tenente Agrícola Baptista, que foi ajudante de ordens de Prestes na época da Coluna.


23 Informe Mato Grosso (Informe de início de novembro de l935. Tribunal de Segurança Nacional. Processo n° 1). In: VIANNA, Marly de Almeida Gomes (Org). Op. cit., p. 115-116.


24 Jornal do Commercio. Campo Grande, 25.12.1938.


25 Relatório apresentado ao Exmo. Sr. Dr. Getulio Vargas Presidente da Republica pelo Bel. Julio Strübling Müller, Interventor Federal de Mato Grosso, 1939-1940.


26 "Foi identificado o cadaver do famoso bandoleiro Sylvino Jacques! A efficiente campanha de repressão aos cangaceiros". In: Jornal do Commercio, Campo Grande, 30.05.1939.


27 Of. do Sindicato dos Criadores do Sul de Mato Grosso ao Presidente do Estado, Julio Strubling Muller, Campo Grande, dezembro de 1940.