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SILVINO JACQUES

                                              



O afilhado de Getulio Vargas que marcou uma Época

As Décimas

                                         

As "Décimas" foram escritas pelas mãos do próprio Silvino que era um exímio trovador. Nelas, ele narra importantes fatos de sua vida, como um verdadeiro diário pessoal. Nestas trovas ele se apresenta e poetiza sua fuga do Rio Grande do Sul, quando algo que começou numa brincadeira fulminou na morte de policiais, além de partilhar sentimentos pessoais, frustrações e amores. As "Décimas" são uma relíquia que vem passando de geração a geração, trazendo com ela o retrato de um homem, que às vezes herói, às vezes bandido, não permitiu que a história ficasse apagada, deixando um indelével registro que nos ajuda a montar o quebra cabeças e descobrir não somente o homem Silvino, mas uma parte fascinante de nossa história.

DÉCIMAS GAÚCHAS

Leia abaixo as Décimas de Silvino Jacques 

 1

Vou contar uma historia,

Que muitos devem saber,

Mas contada por quem não viu

É justo não deve crer.

E para que todos saibam

Bem certo vou escrever.

 

2

Meu nome nunca neguei,

E não pretendo negar,

Me chamo Sylvino Jacques,

E nunca procuro o mal

Ele é quem me procura

E sempre há de me encontrar.

 

3

Sempre fui perseguido

por um ruim triste destino,

Até chegar ao ponto

De ser um homem ferino

E meu nome ser comentado

Com fama de assassino

 

4

Essa triste sorte, de longe

De longe vem me seguindo,

Pois creio que é o meu destino

Que anda me perseguindo,

Embora cheio de mágoas

Eu mostro-me sempre rindo.

 

5

Sou natural da fronteira

Do Rio Grande estimado,

Criei-me como um gaúcho

De pingo bem encilhado

Sempre alegre e altaneiro

Sem maldizer meu Estado.

 

6

Fui nascido nas campinas

Do Sul cheio de flores,

Foi onde vi prazeres

E que conheci amores,

E conheci também tristezas

E golpes cheios de dores.

 

7

Sou filho de Leão Pedro Jacques,

Índio velho pobretão

Mas sempre fez grande empenho

Para dar-me educação

Mas me faltou a memória

E uma boa inclinação.

 

8

Mas isso já é destino

Que desde o berço nos vem

Quem nasce para ser sem sorte

Estuda e nunca é ninguém,

Mas, espero mudar de sina

E ser um dia gente também.

 

9

Um feiticeiro me disse,

Escute, senhor Sylvino,

Pelos olhos eu conheço

Vai ser ruim o seu destino.

Parece que ele sabia

Que eu ia ser assassino.

 

10

A peleia mais falada

De todas que me envolvi,

É a que vou contar agora

Bem certo tudo que vi

A causa passou de farra,

Mas, contudo, sempre me ri.

 

11

Eu e Prudente de Ornellas,

E meu tio José Sant'Ana,

Tomávamos uma cerveja

Em casa de gente mundana.

Mas isso na maior paz,

Pois a sorte sempre engana.

 

12

Muita gente se achava

Nessa triste ocasião.

Homens de toda a idade,

Acompanhavam a diversão

Muitos pares dançavam

Pois era um grande salão

 

13

A patrulha do exército

Na frente estava em dia

E nas portas do fundo

Gente também se via,

Eram guardas da policia

Que o local guarnecia.

 

14

Revólver bom sempre tive,

Ainda mais nessa ocasião,

Eu era guarda fiscal

Tinha a minha obrigação

Assim como Prudente d'Ornellas,

Que esperava nomeação

 

15

Eu disse a meus companheiros

Mas isso de brincadeira

Que no forro daquele prédio

Eu ia abrir uma goteira

Depois do furo aberto

Aí que foi a porqueira.

 

16

A patrulha ignorante

Tentou me desarmar,

Com modos tão agressivos

Que eu não pude aturar

Nisso recebi um tiro

Vi-me obrigado a atirar.

 

17

O cabo caiu no chão

Com dois balaços que dei.

Os praças nos atiraram

Que sorte a nossa não sei

Naquele troca de balas,

Mais um polícial matei.

 

18

Dali saímos para fora

Querendo nos escapar

E o resto da polícia

E a patrulha militar,

E também alguns paisanos

Tentaram nos agarrar.

 

19

Quando me vi cercado.

Entre muitos inimigos.

Comecei queimar cartuchos,

Sem reconhecer o perigo.

Numa praça linda e verdejante

Sem um capim para abrigo.

 

20

Umas cinco quadras brigamos

Com essa gente cargosa,

Com tiros de nossos armas

E um pouco de minha prosa,

Começaram a fugir

Como quem pisa em brasa.

 

21

Antes de terminar o caso

Vou contar a minha dor,

Saudades da esposa e filho

Que para mim é encantador

Saudades de pais e irmãos

Nos quais tenho tanto amor.

 

22

Resumo do Conflito

Que nessa vila se deu,

Sabino José de Almeida.

Que era o cabo, morreu,

E José Gumercindo Fernandes

Também desapareceu.

 

23

Eram onze e meia da noite

Do dia vinte, bem sei,

De Junho de vinte e nove

Quando a matar principiei.

E junto aos meus companheiros

Um rumo certo tomei.

 

24

Prudente, meu caro amigo,

Já ia um tanto ferido,

Mas disposto sempre a brigar

Em caso fosse agredido

Alegre sempre cantando

Mostrando-se divertido.

 

25

Às duas da madrugada

Num bosque escuro entrei

E para chegar numa vila,

Um rumo certo tomei.

Naquele bosque assombroso

Toda a noite caminhei.

 

26

Antes de clarear o dia

Nós todos muito cansados

Seis léguas e tanto

Já tínhamos caminhado,

Deitamos todos no mato

Para descansar um bocado.

 

27

Daí continuamos

A subir montes no sertão.

E chegamos numa casa

Para tomar informação,

Onde tinha uma venda

Para comprar munição.

 

28

Dali saímos informados

Direto a um comerciante

Caminhando bem depressa,

Para chegar num instante,

Balas para os revólveres,

Ali compramos bastante.

 

29

Às duas horas da tarde,

Em Comandaí cheguei.

Fui à casa de um amigo,

O qual nunca esquecerei,

Avisou-me de uma escolta

Ligeiro rumo tomei.

 

30

Era o subdelegado

Que de mim teve notícia,

E reuniu ligeiro um grupo,

Para aumentar a polícia.

De fazer-me perseguição

Isso não tinha preguiça.

 

31

Fizemos uma cruzada,

E a eles todos enganamos,

Passei um rio a nado,

Em outro município chegamos.

E depois de cair a noite,

Nossa viagem continuamos.

 

32

Às dez horas da noite,

Em uma casa cheguei,

Com bons modos e paciência,

Um auto eu arrumei.

Mas fomos atacados,

De auto pouco viajei.

 

33

Ao chegarmos numa vila,

Denominada Campina.

De um grupo bem armado,

Quando vi estava em cima­

Mas desta gente, coitados,

Foi triste sua sina.

 

34

Continha o grupo vinte e seis,

Todos com armas nas mãos,

Gritaram com grande arrojo,

Que me entregasse a prisão.

Nem bem parou o auto,

De pé estive no chão.

 

35

Primeiro tiro que dei

Foi no Sub-Intendente,

Um tal Crescêncio Boguedulta,

O qual caiu de repente

Com um balaço no coração,

Pois é morte que não sente.

 

36

Cerrou bonitas descargas

Todas contra a nossa vida

Meu tio caiu baleado,

Mas levantou em seguida,

Dando tiros espessados,

Fazendo por nossa vida.

 

37

Um tal de José Cardoso,

Moço novo e gauchão,

Esse deu só dois tiros

E nisso caiu no chão.

E o OrnelIas gritou:

?Terminou-se um valentão!?

 

38

Nisto gritou um polícia:

?Amigos, estou ferido!

Devemos nos retirar,

Fugir de grande perigo,

Já vi que é debalde

Lutar com o inimigo?.

 

39

Esse tal José Cardoso

Era um moço escrivão.

E junto ao Sub-Intendente,

Comandava o esquadrão.

Matou-se os dois valentes,

Terminou-se a pretensão.

 

40

O resto da escolta

Ligeiro tudo fugiu.

E nós entramos no mato,

A nado passou-se um rio.

E a noite era de geada,

Sentimos grande frio.

 

41

Mas coragem nunca me falta

Nessas triste ocasião.

Caminhamos dia e noite,

Descalços pelo sertão.

E meus dois amigos,

Me seguiram com atenção.

 

42

Nos bosques sem recursos,

Nossa vida era interessante

Não se encontrava rancho

Para chegar um instante.

Cobras de toda espécie

­Isso sim tinha bastante.

 

43

Remédio para os ferimentos.

Isso era o buraco,

Pois eram folhas de arvores,

Curativos de macaco.

Tinha perdido muito sangue,

Para caminhar era fraco.

 

44

Aos quatro dias de viagem,

Nessa trágica carreira.

Às 11 horas da noite,

Foi que cheguei na fronteira.

Passei o rio Uruguay,

Para terra estrangeira.

 

45

Depois de estar na Argentina

Num sertão quase deserto,

Enxergando o meu país,

Na minha frente tão perto,

E sem poder chegar lá,

Parecia-me não ser certo.

 

46

Recém senti as saudades,

De minha esposa e filhinho,

O qual deixei com três meses,

Um esperto garotinho.

Senti ausência da pátria,

De meu torrão e meu ninho.

 

47

Se fosse só eu a sofrer,

Ainda tinha consolação.

Mas sofrem muitos por mim,

Esposa, pais e irmãos.

Também sofrem pais dos mortos,

Com grande perturbação.

 

48

Dali fomos a São Xavier,

Que é uma vila no sertão

Mas de autoridade bandida,

Que sempre fazem traição;

Onde mataram covardemente,

O bravo herói Pedro Arão.

 

49

Nesse triste recanto em Missões

Quis eu ali me ocultar.

Quando soube, estava vendido,

Por autoridades do lugar;

Entregava-nos a um tal Cardoso,

Que nos queria matar.

 

50

A polícia Argentina

Nos fez perseguição,

Mas se eu tivesse encontrado

Essa turma de vilão,

Aí sim, matava com gosto,

Para me vingar da traição.

 

51

Quando soube da emboscada,

Tratei em me retirar,

Agarrei uma canoa,

E comecei a remar,

E em terras brasileiras,

É que eu fui me ocultar.

 

52

Enquanto me procuravam.

Em São Xavier das Missões,

No Brasil é que eu estava,

Escondido nos sertões,

Esperando cair a noite,

Para tomar direções.

 

53

Nesse lugar que eu passei,

O dia todo escondido,

Foi nas matas do Cardoso,

Pai do que tinha morrido,

E do mesmo que na Argentina,

Tinha nos perseguido.

 

54

Numa canoa fraca,

Rio abaixo nos seguia,

Era forte a cerração,

Nem mesmo de perto se via,

Completamente sem rumo,

Sem uma estrela para guia.

 

55

De uma cachoeira ao longe,

Forte rumor se ouvia,

São mistérios da natureza,

Até a canoa rangia,

Parecendo dar sinal,

Que um tombo d'água se abria.

 

56

Mas felizmente passamos,

De pelo todo molhado,

Pois a canoa encheu d'água.

Mas não fiquei assustado,

E quando vi o perigo,

Já o tombo tinha passado.

 

57

Santa Maria e Santo Isidro,

Que é nome de duas cachoeiras,

Ainda muito pior que a outra,

Receei fazer porqueira,

Troquei de embarcação,

Margiei terras brasileiras.

 

58

Às seis e meia do dia,

Já muito distante estava

De todas as cachoeiras,

Já nem rumor se escutava,

E os inimigos sem rumo,

Triste nos procurava.

 

59

Trajeto como esse,

É custoso se fazer,

Em tombos d´água imensos,

Arriscando até morrer,

Mas era o único recurso,

Não se podia temer.

 

60

Em terras brasileiras

Meu valente barco aportei.

Fui em casa de um amigo,

E três cavalos arrumei,

E fui passear em São Borja,

Nos pagos que me criei.

 

61

Um tal de Duque Rodrigues,

Um ruivinho garnisé,

Esse também perseguiu-me,

Foi até Santo Tomé,

Lambendo as esporas do tal Cardoso

Eu sei o que ele quer.

 

62

Esse tal de Duque,

É um Sub-Delegado,

Lá dos quartos de São Borja,

Onde foi nascido e criado,

Por ser covarde e assassino,

É que é hoje empregado.

 

63

Foi toda sorte desta besta,

Não ter topado comigo,

Para conhecer no mundo,

O que se chama perigo,

Eu tenho grande vontade,

De um dia topar contigo.

 

64

Para medir nossas forças,

A raça e a qualidade,

Pelearmos de peito a peito,

Para eu saber se é verdade:

Se és gaúcho de fato;

Se falas a realidade.

 

65

O gaúcho nunca se aperta,

Não sente fome nem frio,

Quando enxerga o inimigo.

Nem sequer dá um arrepio,

Pega as armas e bebe um trago,

Se o frasco não está vazio.

 

66

Quem nunca passou trabalho,

Nem sofreu perseguição,

Não sabe avaliar a vida,

De um caboclo valentão,

Dormindo sempre escondido,

Sua cama é o próprio chão.

 

67

Quanto é triste viver longe,

De quem se tem amizade;

E em país estrangeiro,

Aumenta mais a saudade,

Da esposa, pais e irmãos.

Que vida sem liberdade.

 

68

Mas, remorso eu não tenho,

Nem de que me arrepender,

Briguei em minha defesa,

Matei para não morrer.

Nem que obrigue-me a bandido

Da prisão hei de correr.

 

69

A vida que vou levando,

É uma vida desgraçada

Mas muito pior ainda.

Numa cadeia fechada.

Prefiro andar de canto em canto

Sem nunca ter morada.

 

70

Estive em terras Argentinas,

Sofrendo mil privação,

Sem me confiar a ninguém,

Inda com perseguição,

Só confiava em minhas armas,

E o bocó de munição.

 

71

Numa tarde em que eu passeava

Em Santo Tomé Corrientes,

Visitando alguns amigos,

E também alguns parentes

Soube de uma escolta,

Que preparavam aquelas gentes.

 

72

A polícia de Corrientes,

Cabras ruim e traiçoeiro,

Com proposta do Cardoso,

De ganhar algum dinheiro,

Andavam nos negociando,

Para nos fazer prisioneiro.

 

73

Assim que eu soube

Dessa vil traição,

Agarrei minha arma de guerra

E o bocó de munição,

E sai enfurecido,

Danado como um leão.

 

74

Assim que chegou a noite,

Eu, sem ter preguiça,

Fiz um lindo trajeto,

E enganei a policia

Fugi para o Brasil,

Deixei de mim sem noticia.

 

75

O meu tio José Sant´Ana,

Não quis mais me acompanhar,

Agarrando outro rumo,

Diz ele para descansar.

Mas tenho grande cuidado,

Que a ele possam pegar.

 

76

Eu e Prudente de Ornellas,

Sempre em combinação,

Viajando sempre os dois juntos,

Não digo com presunção,   .

Só mesmo por um castigo,

Nos entregar à prisão.

 

77

Se algum dia por acaso

Não possa eu contar vitória,

Que os inimigos me matem,

E assim cheio de glória,

Eu peço a meus amigos,

Que leiam a minha historia.

 

78

Que é para todos saberem

Que não morri por ser bandido.

Foi por ser um índio

Daqueles bem decidido.

E muitas vezes matar,

Quando me via agredido.

 

79

De minha esposa e filhinho,

Bem triste a muito não sei.

Nem ela sabe de mim

Qual rumo foi que tomei.

Sofremos os dois saudades,

Do lar que eu abandonei.

 

80

Saudades do meu irmão,

Meu fiel compadre e amigo,

Quando chegará o dia,

Que eu possa falar contigo

Contar-te a minha vida,

Minha sorte sempre maldigo.

 

81

Quanto é triste viver longe

Do grato torrão natal,

E sempre perseguido

Correndo para escapar.

Mal, ainda, há de chegar o dia

Da esposa e mãe abraçar.

 

82

Embora triste e aborrecido

Nunca dou demonstração.

De que serve entristecer-me?

Se para mim não há perdão;

Embora morra como um valente.

Não me entrego à prisão.

 

83

Tantos bandidos que matam

Vilmente de emboscada,

E como são do Governo,

Saem dando risada.

E outros por terem dinheiro,

Não lhes acontece nada.

 

84

E quando é um homem pobre,

Que mata sendo agredido,

Tem que ligeiro fugir,

Por ver-se tão perseguido,

E ainda muitos comentam,

Matou porque era bandido.

 

85

Tem-se visto muitos exemplos

O meu não é o primeiro;

Julgando às vezes estar salvo

Em países estrangeiros,

E ainda ser mais perseguido.

Por ambição do dinheiro.

 

86

Hoje estou no meu país,

E não pretendo emigrar.

Hei de andar de um lado a outro

Procurando sempre escapar,

Mas quando me vejo agredido,

Resolvo sempre a pelear.

 

87

No Brasil é que se encontra

Os cablocos gauchão,

Que não medem dificuldade

Em dar sua proteção,

A qualquer um perseguido

Que anda sem direção.

 

88

Conheço a Argentina

E o Paraguai também,

Mas esses são países

Que para mim não convém

Porque de uma hora para outra,

Me incrimino lá também.

 

89

Se para sempre andar,

Assim desacomodado

Então vivo no meu pais,

Que sou menos sobressaltado;

E enquanto eu tiver saúde,

Serei também respeitado.

 

90

Amigos tenho diversos,

Que neles tenho confiança;

Sou ruim para meus inimigos,

Faço carinho às crianças.

E meus amigos sinceros,

Eu sempre trago em lembrança.

 

91

Artur Medeiros é um amigo,

Que a ele devo atenção,

Assim como Lourenço Gago,

E também Argemiro Leão,

E Argemiro Araújo,

Meu primo de estimação.

 

92

Em todos os amigos que tenho,

Não me é possível falar.

Tenho muitas histórias

Que hoje quero contar;

E se falo em todas elas,

O tempo vai me faltar,

                                                       Clique aqui para ler a 2ª parte

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